Os sem-vila
Confesso: levou um bom tempo até que eu desse a merecida atenção à frase “requer uma vila para criar uma criança". Não tenho filhos, logo isso sempre me pareceu um problema de quem os queria ou os tinha.
O que me fez ignorar o incontornável fato de que eu também sou filho e, por consequência natural, precisei de uma vila na minha criação, é objeto de exame e surpresa. Vamos no momento ao exame. Ora, pela lógica mais rudimentar, um “sem-vila”, alguém que nunca viu tão fenômeno, não deveria sentir falta disso, como um russo não dá falta de samba, ou um peixe não precisa de uma bicicleta.
Talvez eu não tenha me tocado da incoerência deste pensamento (e talvez você, que me lê, também não) pelo fato de as vilas serem hoje cada vez mais raras e ficarmos sem referência. São raras ao ponto de muitas vezes falarmos de comunidades de maneira alusiva, referencial, como quando mencionamos uma máquina de datilografar, ou uma câmera de filme.
Mas foi uma leitura sobre relacionamentos, já na meia idade, que me despertou para isso. Como já a citei aqui antes em detalhe, agora a trago muito brevemente. Grosso modo, a passagem tratava do fato de a vila amplificar nossas faculdades físicas, mentais e emocionais. Ou seja, um indivíduo pode pouco ao tentar construir uma casa sozinho, já um grupo pode muito mais. Alguém que vai se casar tem uma visão mais estreita do seu parceiro ou parceira; mas ao consultar primos, irmãos, pais, de ambos os lados, expande-se o entendimento sobre a potencial harmonia do novo par. Um problema emocional pode ser avassalador, quando endereçado por um indivíduo, todavia ele se torna muito mais tratável ao recebermos apoio de mestres, pessoas que nos amam, profissionais…Parece maravilhoso, mas por que isso sumiu? Uma tese: essa tecnologia coletiva soa perigosa a qualquer sistema que se propõe à exploração de nossa energia, e este vai se ocupar de quebrar essas ligações comunitárias e atomizar nossa existência para que, agora sim mais desvalidos, mais solitários, mais neuróticos, sejamos também mais facilmente exploráveis. Teses…
Contudo hoje me interessa mais olhar para o indivíduo do que as causas e efeitos disso no espectro social. Desde minha leitura daquele livro, por livre associação, começou a me ocorrer que alguns dos meus mal-estares, alguns que me acompanharam a vida toda, disfarçavam-se de minha identidade. Mas na verdade tratava-se meramente de “falta de vila”.
O primeiro e mais deletério dos sinais foi a desproporção entre o impacto das emoções positivas e negativas. Como se, para o desconforto, o desgosto e a agonia, eu estivesse em carne viva; já para o prazer, a alegria, a ternura, minha alma estivesse plastificada. Só que o instinto de sobrevivência é poderoso e convincente. E, por isso, me levou muito tempo para duvidar da hipótese de que a existência não era só penúria e lamento.
Mas não paremos aí, na mãe dos desconfortos. Se examinarmos alguns de seus filhotes, vamos encontrar:
A certeza de que logo depois de um período feliz (ou menos miserável) vem logo uma catástrofe, só “pra equilibrar” as coisas;
A dificuldade de confiar nos outros, em si ou na vida;
O pavor, o pânico, do prazer irresponsável como brincar, dançar, rir, se perder, etc.;
Uma abissal incerteza moral. Como se tudo fosse possível, passível de se fazer; tudo de ruim fosse impedido apenas pela lei, pelo custo-benefício ou pela vigilância;
E, como consequência do ponto anterior, uma paralisia (por não querer gerar mais danos no mundo) e um ressentimento (por vê-los acontecer mesmo assim).
Lembro de uma leitura que fiz do livro do M. Scott Peck, O caminho menos percorrido, em que ele dizia que agir em decorrência de percepções abstratas, que não se provam, e que só causam dano ou estancam o amor, pode ser qualificado como um tipo de religião; uma religião horrível. Pois é.
Daí que a leitora, o leitor, pode me questionar “mas isso é falta de vila? Ou falência do indivíduo?”. Ao que responderei: o indivíduo é falho e insuficiente por natureza. Esta é a norma, não a exceção. As mães vão se cansar, os pais vão ter medo, ambos (e todos) vão ter raiva, tristeza e uma ignorância imanente aos marinheiros de primeira viagem. E isso a despeito das melhores intenções. A jornada de ajudar um alguém a aterrissar bem neste mundo é complexa, incerta, exaustiva e assustadora.
Mesmo para quem não tem filhos já é desafiador trilhar qualquer caminho com alguma paz. A vida é muito maior do que nossos esforços e a vida que nasce da gente exige um tamanho que não temos. Daí a importância de haver atrás da porta do vizinho um sorriso caloroso, uma dose de sabedoria, um coração simpático. É o que atenua o desencontro do nosso tamanho com o do mundo e permite uma travessia mais auspiciosa.
Oportunamente menciono também que vilas perfeitas não existem. Mas se forem perfectíveis, já cumprem o seu papel. O que mais importa aqui é entender a “física” dos sem-vila. Uma natureza paralela, silenciosa, uma areia movediça que juramos que é terra firme. Por exemplo, quem não teve um avô sábio, pode morrer sem saber o que é esperança. Ou quem não teve onde ver coragem, vai encontrar um fantasma em cada esquina. Sem experimentar com alguém que admiramos a delícia do repouso, vamos castigar nosso corpo a vida inteira achando que descansar é uma blasfêmia.
Uma vila com saúde fertiliza virtudes e preenche lacunas. Só que a pessoa que não a viu nem sabe de que se trata. E pouco falamos disso. Preferimos dizer que fulano é bem-sucedido porque a família era rica, que fulana é nepo-baby. Mas muitos desses casos caem por terra quando encontramos pessoas que florescem sem dinheiro ou status. Não foi sorte, foi vila. Ou a sorte foi de se ter uma.
Aquela pessoa com autoestima e à vontade na própria pele? Provável que teve alguém que lhe deu amor e atenção apenas por ser quem ela é. Aquela outra otimista, serena, que se permite sonhar? Viu paz doméstica enquanto criança, ou não viu o caos que o desequilíbrio mental e relacional podem causar numa família. Aquele outro com foco e atenção? Talvez tenham lhe garantido tempo de qualidade para isso.
Mas não vim aqui colocar pimenta na sua afta de sem-vila. Muito pelo contrário. Assim como adotamos bichos de rua e os testemunhamos ganhar saúde, viço, paz, capacidade para o afeto e bom humor, somos também estes órfãos passíveis de reabilitação. E suspeito que o primeiro passo é sabermos disso. O segundo é um pouco etéreo e exige mais da nossa coragem: começar uma vila. É ambicioso, mas os sem-vila já nascem destituídos desse privilégio de nascer num sistema fértil, amoroso, e não podem se dar ao luxo de esperar serem convidados para um.
Criar a própria vila é um gesto de fé, coragem e humildade. Há que se abandonar os hábitos sombrios dos tempos idos e do lugar que deixamos no passado: a desconfiança, o auto-ódio, o cinismo. E leva tempo. Não é todo mundo que vai entender, aceitar ou merecer ser aceito nesta nova vila.
A boa notícia é que é possível e compensa. É possível por uma questão matemática. Os desgarrados, exilados, são muitos. Nem todos vão perceber a preciosidade do que se está criando, mas alguns sim. E compensa porque os que ficarem saberão o valor da compreensão, da cooperação, do acolhimento, da escuta, do amor e da amizade. E aí estará feita mais uma vila. Nunca será perfeito, mas o lugar pantanoso de onde viemos também não o era.
E aí poderemos saborear, finalmente, como se cria aquela criança que um dia fomos, e que ainda reside em nós, em busca de uma vila para crescer.
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