Apaixonar-se é grátis
Quando fui há umas semanas ao MASP ver a Ecologia de Monet, já sabia que minha visita não era apenas por causa da obra dele, ainda que a admire e antecipasse esse momento. Sou um apaixonado por museus. Não me incomodo com a fila, o alvoroço da entrada, o ar condicionado desproporcional ou a dificuldade de ficar a sós com as peças; nada. Estou em casa. Vagando em silêncio, contemplo as visões do artista, suas escolhas, a física que ele almeja (e consegue) imprimir em cada detalhe. Detalhes que, às vezes, por entusiasmo ou distração, nós visitantes não percebemos.
Mas isso ainda não é o mais interessante aqui. Aquela multidão em polvorosa, comentando como especialista, especulando sobre as razões do artista, dividindo pequenos achados com sua companhia de visita, isso tudo é lindo. Me faz sentir entre ornitólogos tarados, sentados por horas em banquinhos desconfortáveis, apenas para flagrar um ou dois pássaros por brevíssimo instante e comentar sobre o encanto daquilo tudo. O que eu não sabia é que iria me deparar outra preciosidade: não éramos só eu e meus deslumbrados parceiros de visita os apaixonados naquela sala. Monet também.
Por generosidade e astúcia do curador, havia ali algumas aspas confessionais do artista, dentre as quais escolhi esta:
“Voltei a algumas coisas que simplesmente não podem ser feitas: a água, com algas dançando no fundo…É uma visão maravilhosa, mas é de enlouquecer querer fazer isso. Porém é esse tipo de coisa que estou sempre tentando enfrentar.”
Que sentimento é este, senão o do apaixonamento? Sei bem do que se trata. Para além da minha fissura em artes visuais, também amo paisagens. Apesar de não partilhar do talento manual do mestre impressionista, sei do que ele está falando quando escreve “visão maravilhosa”ou “é de enlouquecer querer fazer isso". Tenho meus refúgios a que retorno para fazer sempre a mesma foto, assim como me pego descobrindo outras coisas maravilhosas pelo mundo. De forma que compreendo o ímpeto do pintor em estudar jardinagem, em ter um barco ateliê, etc. Não é uma comparação, é coisa de apaixonado…
Na saída do museu ainda estava embriagado de toda aquela energia, quando me lembrei de um post de uma crítica literária, dizendo que estamos hoje cada vez mais desinteressados. Com alguma melancolia tenho que concordar. É o que vejo no rosto das pessoas na Paulista, mas também nos parques, nos supermercados, nos aeroportos, no trânsito, até nas crianças. Meu primeiro reflexo é o de lamentar pelas pessoas que não se apaixonam. E por instantes experimento sentir aquele gosto difuso de ansiedade, aquela preocupação suspensa, um desalento constante. Mas quando lembro da forma como somos educados sobre paixão, penso: pudera.
Não é inteiramente certo dizer que só o sistema vigente nos doutrinou assim, mas é realista considerar que ele tem ganhado muito com isso e está nadando de braçada em nosso desinteresse crônico.
Imagino que esse deslocamento da paixão tenha começado no romantismo mas, para meu argumento, hoje importa menos sua origem do que esse formato frágil e infrutífero sob o qual costumamos nos encantar. Para ser mais específico, um formato onde a paixão quase sempre depende de um outro. E exige, ainda por cima, reciprocidade. Quando não, devoção, provas estapafúrdias e desproporcionais de que aquele outro ser humano nos prioriza acima de tudo; pensa em nós 99% do tempo, sonha com um futuro conosco e, o mais injusto, aquele outro ainda precisa ser melhor do que nós mesmos.
Sim. Raríssimas paixões envolvem alguém menos especial que a gente. Daí que você, leitora, leitor, pode me questionar: óbvio, paixão é nutrida por admiração, vou lá me apaixonar por uma criatura que seja a raiz quadrada do meu valor nominal? Pois é…
Não é de se admirar que nosso músculo da paixão esteja atrofiado. Foi alimentado com balelas demais, de baixo valor nutritivo para o nosso emocional, falácias que nos iludem associando paixão a saldo. Como se apenas um saldo positivo justificasse apaixonar-se. Não surpreende padecermos de tanta solidão. Me parece que esta paixão com fundos é falsa e deletéria. Favorece apenas a máquina que, diante da frustração natural que tal quimera engendra, lucra com nosso desassossego.
Imagine Monet frente a um lago, um cais, uma rocha, e pensando “quanto essa paisagem vai me adorar de volta? Quanto vou lucrar em cima disso?” Observe que nem era preciso que Monet criasse as pinturas. Sua obra são os registros daquela paixão, não a paixão em si. Apaixonar-se é algo mais antigo que nosso sistema mercantil digitalizado e, com alguma esperança, vai sobreviver a ele.
Reduzir a paixão unicamente a relação com um outro que tem que, também, estar apaixonado por nós e ainda gerar um saldo positivo é um engano melancólico e perigoso. Tão perigoso quanto essas notificações malévolas e disruptivas, que tentam nos “informar” quantas pessoas “curtem” o que fingimos ser e nos “seguem". As pessoas que têm abundância nesses números parecem satisfeitas? Agora pegue os apaixonados, sendo Monet apenas um exemplo, quanto ele precisava de alguém dando reforço positivo, para que passasse horas em frente a uma paisagem, entregue àquilo?
A paixão serve, antes de tudo, ao apaixonado. Ela é o combustível do seu arrebatamento, o veículo da sua redenção, ela o transporta para o seu gozo, emana o sentido que move aquela pessoa. E não é preciso ir tão longe.
Lembremos do que Dorival fala da Bahia. Ou de como Paulinho se refere ao Samba e à Portela:
“Foi um rio que passou em minha vida, e o meu coração se deixou levar”
Quão longe isso está de uma visão maravilhosa, de enlouquecer, para ficar nas palavras de Monet? Se compreendêssemos que o maior beneficiado da paixão é o apaixonado, o mundo que conhecemos viraria do avesso. Para onde você olharia se as coisas fossem assim? Quantos interesses não aflorariam? Quanta generosidade? Quanto amor não se sentiria unicamente pelo fato de se estar vivo?
Mas o mundo das cifras, dos saldos e das curtidas teme o ser humano apaixonado. A mágica que envolve ser um com o todo, fusionar-se com ele. A força imanente de amar da mesma forma que uma abelha faz mel, ou como uma árvore frutífera dá fruta. Isso aterroriza quem manda e lucra com nossa desesperança e (induzida) falta de imaginação. Como também os deixa intranquilos o samba, o grafite, a caridade e a luta por justiça. Apaixonar-se é de graça. É revolucionário. Não nos deixemos enganar.
Minha visita à paixão ecológica de Monet já faz umas semanas. Desde então me pego nuns rompantes de apaixonamento. Por um sorriso, um filhote de cisne, um pôr do sol, um gesto. E não consigo deixar de me imaginar, como Monet, admirando essas visões maravilhosas, de enlouquecer; e cantando “foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar"...

