Aceitar e rejeitar
“Nunca é alto o preço de pertencer a si mesmo” é uma frase ambiciosa e um aprendizado profundo que carrego comigo há bons anos. A ideia é atribuída erroneamente a Nietzsche, embora eu não tenha encontrado uma fonte certeira sobre isso. Pesquisando um pouco mais, acabei descobrindo que pode ser de Rudyard Kipling ou também pode ser apenas uma dessas visões poderosas que se colam a nomes famosos para dar mais credibilidade. Mas quando uma ideia é ancorada na realidade, sua autoria é mero detalhe.
Gosto dessa frase em diversos níveis: Pertencer a si mesmo tem um preço que, às vezes, quando jovens ou desavisados, não entendemos claramente. Depois, esse preço pode parecer alto, visto que o autor da frase reforça um ajuste na percepção. Por fim, ainda que o preço pareça alto, ele nunca o é. Me parece ainda que, mesmo não sendo a frase de autoria de nenhum dos bigodudos levantados na suspeita, o autor dela tem autoridade suficiente. Veja, quando ele diz que o preço nunca é alto, está implícito que esse preço foi pago por ele mais de uma vez. Talvez muitas. E sempre valeu a pena.
Por pura experiência, eu também concordo. Por isso, sempre me lembro dessa ideia. Recentemente, tenho pensado também num par de preços que pagamos pela nossa emancipação existencial. Em poucas palavras: aceitar e rejeitar. Verbos ordinários que passam quase despercebidos no conjunto das ações da nossa vida, embora muito da qualidade, da intensidade e da profundidade dos nossos dias dependa deles. Aceitou o bullying de alguém? Ganhou um torturador novo de presente. Rejeitou o contato intempestivo de alguém? Pode ter fechado uma porta antes de entender se havia valor ali.
Ora, é natural, quase visceral, para nós, jogarmos esse jogo de abrir e fechar portas sem pensar muito. Por reflexo, por intuição ou até por capricho. Mas ignorar a importância desse jogo representa em si um preço, que pode ter contornos dramáticos e cumulativos.
Depois de muitos anos abrindo e fechando essas portas de maneira inconsciente, e de mais alguns anos fazendo isso de forma mais atenta, estou convencido de que aceitar e rejeitar são dos movimentos mais importantes que se pode fazer. Ainda mais quando o que se quer é pertencer a si mesmo. Digo mais: deveriam ser práticas ensinadas na escola, ter disciplina na faculdade, comentaristas na TV (“hoje, um milhão de pessoas não aceitaram nova concessão do prefeito/governador/presidente/juiz às elites e…”) Talvez até TikTokers da aceitação e da rejeição, se calhassem de influenciar para o nosso bem.
Uma suspeita: não somos treinados na arte de aceitar e rejeitar porque isso seria libertador. E daí nos tornaríamos menos mansos, menos distraídos e, talvez, mais incômodos quanto às nossas necessidades e direitos. Quase nada do que liberta o ser humano é ensinado na escola e daí nos formamos sob o jugo da obediência e do autoabandono.
Com certeza não estou falando de sair por aí rejeitando ou aceitando tudo o que existe a torto e a direito. Mas sim de decisões bem informadas, de manejar ambos os lados com maturidade, com a capacidade de também não ocupar nenhum deles quando necessário. E isso requer experiência e conhecimento. Se olharmos em profundidade para essas duas atitudes, podemos vê-las como duas pontas de um mesmo espectro, que demandam sabedoria para navegar entre elas com equilíbrio.
Aceitar, por exemplo, causa desgosto aos mais rebeldes, mas muitas vezes é essencial saber:
Aceitar situações temporariamente, a fim de reunir energia para uma mudança logo mais;
Aceitar que nossas premissas estão erradas, ou generalizantes demais, ou insuficientes, ou egoístas demais, ou mal-informadas;
ou aceitar o fim das coisas com graciosidade e respeito, como evidência da transitoriedade da vida e de que nada nos pertence;
Também aceitar nossa insignificância oscilante. Porque às vezes somos nós que decidimos alguns jogos e, na maioria das vezes, não;
Aceitar que estamos em constante aprendizagem, que nunca saberemos de tudo;
E até aceitar as rejeições que nos cabem ou nos são impostas.
Poucos exemplos que não cobrem todo o mapa, mas dão uma noção do vasto território da aceitação.
Só que automatizar a aceitação (fetiche dos mais autoritários e dos mais dóceis, por razões diferentes) não resolve toda a charada. A vida adulta também requer um manejo competente da rejeição. E talvez aqui resida a nuance mais sutil da conversa. Rejeitar tem uma valência negativa, que assusta muitos, como se estivessem diante de uma brutalidade, de uma rebeldia gratuita, até de um risco.
Mas esse gêmeo oposto da aceitação também tem lugar em nossos dias e define o rumo deles. Rejeitar tem um caráter educativo muito forte, que talvez “aceitar” não tenha. Ao rejeitar a atitude de alguém ou uma situação, definimos um limite na realidade. A rejeição de um outro que é agressivo, manipulador, mesquinho, cruel, narcísico ou inconveniente sinaliza que mais daquele comportamento será respondido com distância e isolamento, com o fim das alianças e dos recursos. E isso pode gerar resultados positivos, mudança de conduta ou, pelo menos, paz de espírito. Além disso, se feito coletivamente, esse limite ganha escala. Por exemplo: não basta “não aceitar” o racismo, o fascismo, o apartheid; é preciso rejeitá-los. Às vezes a única (talvez a última) forma eficiente de escancarar ou finalizar algum abuso é a rejeição frontal.
Daí por que acredito que seja crucial alfabetizarmos-nos melhor nas dinâmicas de abrir e fechar portas para os outros e, principalmente, nos preços e retornos envolvidos nisso. Encerrar um ciclo num lugar tóxico, por exemplo, tem seu preço e sua recompensa. Dar uma chance àquela pessoa que parecia insossa, boazinha demais, só porque não nos machuca de maneira familiar também tem.
Assim, estaríamos ampliando nosso vocabulário de sins e nãos e também entendendo melhor as relações de causa e efeito em ambos os comportamentos. Até ficarmos bons nisso. O que também requer discernimento para empregar um sim ou um não na hora certa, como diz a Oração da Serenidade – outra que ajuda muito na pertença a si mesmo.
Voltando a Nietzsche, agora com mais certeza da fonte: esse assunto me faz lembrar da alegoria do camelo, do leão e da criança que ele nos apresenta em Assim falou Zaratustra. Nela, o ser humano passa, se tudo der certo, por três fases. A do camelo, marcada pela obediência e pelo peso do dever (dominância da aceitação); depois, a do leão, quando definimos limites, refutamos imposições externas e construímos nossa identidade (dominância da rejeição); e, por fim, a da criança, na qual reconstruímos nossos valores de maneira mais genuína, à luz de uma inocência que passa a dizer “sim” à vida.
Ligando o que sei que é de Nietzsche ao que se atribui a ele, podemos intuir que a criança que nos tornaremos quando formos mestres do sim e do não (do aceitar e do rejeitar) terá pago todos os preços (que nunca são altos) e hoje pertence, num estado de idílica inocência, a si mesma.
Oxalá.
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