A piscina de sintomas se alarga
Há anos sou apaixonado por Psicologia. Talvez o fosse antes mesmo de entrar para a universidade (e a contragosto ter de mudar de curso depois). Hoje percebo que, para além do papel terapêutico dessa ciência, me interessava em especial a capacidade dela de catalogar, dar nomes às coisas mais sutis da vida mental humana. Talvez por necessidade, por ter que entender os efeitos das minhas origens, da minha identidade e também as relações comigo e com o mundo. De modo que sempre me eduquei nas nomenclaturas que a psicologia encontrava para as situações mais abstratas com muito prazer e curiosidade.
Um desses nomes, que aprendi há cerca de uns cinco anos, foi o “symptom pool”. Trata-se do conjunto de sintomas manifestados numa dada época; as formas como nós, criaturas que sofrem, aprendemos a expressar nossos sofrimentos numa determinada janela de tempo da história. O conceito, apesar do nome sugestivo, é esclarecedor. Gosto, por outro lado, de traduzi-lo de maneira livre e literal, como sendo a nossa “piscina de sintomas”. Está claro para mim que é impróprio e obtuso, mas me intriga a imagem de uma cavidade cheia de fluido, onde nós e nossos mal-estares de época estamos boiando, fluindo de um lado para o outro entre os presentes. E ainda me parece útil pensar que resíduos desses sintomas vão trafegar por esse fluido social e chegar a outras pessoas, tal qual acontece se fizermos xixi na piscina.
Contudo, assim como admiro essa ideia dos sintomas subordinados a uma época, me pergunto por que não correlacionamos esses mal-estares aos seus respectivos sistemas vigentes naquele recorte de tempo.
Explico: um dos sintomas na “piscina” da Idade Média era a possessão demoníaca, na qual o afetado padecia de delírios, convulsões e, a partir de uma leitura pautada pelo modelo vigente (religião católica) especulava-se que o sujeito estava sob o domínio de Mephistópheles. Não se cogitava (ou não era de bom tom fazê-lo) que as condições paupérrimas, a falta de comida, de proteção, a opressão dos senhores feudais, a falta de higiene, de perspectiva, tivesse qualquer contribuição para isso. E sendo possessão, o que se aplicava à pobre alma (além de escárnio e rejeição) era o exorcismo, uns salpicos de água benta, confissões forçadas e penitências. Já o sistema melhorar suas condições…
Daí que não consigo conter uma pergunta que me perturba: esse mal estar advinha da época? Ou do sistema?
O que me fez começar essa especulação foi uma passagem no livro de Paul Brunson (nada a ver com piscinas e exorcismos, mas sim com relações) em que ele relata o papel da igreja na dissolução da estrutura familiar de clãs em alguns lugares da Europa medieval. Como o sistema vigente almejava ampliar seu poder, ao mesmo tempo em que a igreja impunha sua fé a (ou cooptava) pessoas de fora do catolicismo, ela também proibia o casamento consanguíneo, fomentando êxodo de pessoas que não conseguiam mais casar em sua comunidade. Também promovia relações de vassalagem dos egressos de clãs com os senhores feudais e impunha regras de herança linear (de pai para filho) que enfraqueciam as comunidades e davam mais poderes aos senhores. E se alguém não concordasse?
Basta pensar que, se as comunidades passaram a se dissolver, e que é necessário uma vila para criar uma criança, essa piscina passou a ficar mais cheia de gente (e de sintomas).
Em poucas palavras podemos dizer que uma instituição poderosa (de olho em ampliar ainda mais sua rede de poder) impõe transformações às vidas das pessoas numa determinada época, sem sua anuência, transferindo o ônus dessas mudanças para essas pessoas, potencialmente criando mais doenças, infortúnios e suplícios do que já havia disponível. Nesse raciocínio também dá pra incluir a histeria, a neurastenia, e por aí vai. E não é preciso ir tão longe. Basta olharmos para o que o próximo sistema fez com os povos originários e escravizados na América ao longo dos séculos.
Mas será que isso acontece hoje? Se considerarmos que a aliança entre igreja e feudos era menos aparelhada, menos tecnológica, menos big data, e já era capaz de gerar um estrago em escala, o que o nosso atualíssimo tecnofeudalismo não será capaz de fazer?
Usando esses mesmos óculos para ler as formas como um sistema nos espreme em busca de extrair valor e semear obediência (e que, não sendo algo agradável e nem natural servir eternamente, injustamente, desproporcionalmente a um outro, e ainda que isso tem efeitos inevitáveis na nossa já larga piscina de sintomas) convido você a fazer o mesmo exercício com o nosso sistema…quero dizer, com a nossa “época”.
Por um instante, vamos duvidar da hipótese de que as nossas agruras emocionais e mentais ocorrem de maneira orgânica e espontânea ao bel prazer de uma entidade etérea como o Espírito do Tempo. Vamos fazer uma relação mais concreta, mais terra a terra, entre as condições que nos impõem e os males de que padecemos. Comecemos de trás para frente, com um fenômeno de agora, de ontem, e depois voltamos. Vamos despí-lo do branding da palavrinha da moda (também uma invenção do sistema no tempo) e examinar a cena:
Pessoas criam bonecas recém nascidas como se fossem suas filhas. Levam-nas ao hospital, simulam partos, as amam publicamente como se fossem criaturas vivas, criam rotinas para elas. Pensou no nome? Vamos deixá-lo de lado enquanto aprofundamos: o nosso gesto mais rápido, ainda que nem sempre de má fé, é o de escárnio ou moralização. Ou debochamos, ou suspeitamos de um diagnóstico de que essas pessoas não querem o ônus de um filho e uma relação real. Que é falta de serviço, que é narcísico. Pode ser.
Mas e se pensarmos também que o desejo de se relacionar é natural e soberano? E que as condições que o sistema vigente nos proporciona para consumá-lo são enviesadas pela necessidade do próprio sistema de explorar nossas vidas, nos permitindo o mínimo de fruição, seja do nosso tempo, seja de recursos, de relações de qualidade, de proteção, de estabilidade, ou até mesmo da confiança de que estamos aptos a criar um ser humano. Note que essas condições não levam em conta as necessidades e desejos inerentes às pessoas da época (como o clã que preferiria continuar clã) mas sim o que a “máquina” precisa para ficar maior e mais poderosa naquele momento.
Não sei. Isso me parece meio especulativo. Vamos pegar outros exemplos para ver se a coisa pára em pé. Consideremos que nesta mesma piscina de sintomas temos:
Pessoas que, diante da precarização cada vez mais voraz das leis trabalhistas, da gig economy, da alta vertiginosa e constante dos preços, da extinção dos limites entre a vida e o trabalho, têm burnout. Ou crise de pânico. Ou transtornos de atenção, ou depressão. Isso é da época, ou do sistema?
Ou que, diante de uma epidemia de solidão, de regras de relacionamento cada vez mais incertas e líquidas, da objetificação algorítmica que permite explorações financeiras em ambos os lados de uma carência, as pessoas passam a odiar o “outro” lado da relação. Insultá-lo, diminuí-lo, desprezá-lo, antes mesmo de conhecê-lo. Mal de época? Do sistema?
Ou ainda crianças que têm pouco tempo de convívio e conexão com os pais (lembremos que no atual sistema tempo é dinheiro, e falta ambos a quase todos), e que carregam em suas mãos aparelhos que disseminam auto-ódio, comparações esdrúxulas, erotização de qualquer coisa, bullying…essas crianças estão ficando deprimidas e se mutilando, ou até tirando suas vidas, às vezes transmitindo isso online. Época? Sistema?
Enquanto tentamos fazer essa distinção, podemos ver que a piscina dos sintomas fica cada vez maior. Consultei a inteligência artificial (a qual nosso sistema já cogita sua escalação para o papel de “amigo” dos solitários) e pedi que listasse somente os mal-estares desta era. Ela me devolveu 37 sintomas relacionados apenas à era digital, e mais 15 relacionados à inteligência artificial. Estranho, a promessa não era a de que essas modernidades tornariam nossa vida melhor? Ou esqueceram de especificar a vida de quem ficaria melhor?
Fico com a impressão de que a piscina de sintomas alarga-se a cada ano, já está pra lá de olímpica. E na borda dela, o sistema vem nos servir diagnósticos (com um livro que oficializa o catálogo) e também remédios que, convenhamos, servem para nos manter dóceis enquanto nossos sintomas escorrem para dentro desse fluido, desgraçando nossos anos nesta terra e/ou os das pessoas à nossa volta.
É improvável, mas me pergunto se não seria interessante, já que não mandamos no sistema que fabrica as doenças, nem no que dá nomes a elas, nem no que treina os médicos para nos tratarem, nem no que divulga as notícias…já que não mandamos em nada disso, talvez pudéssemos pelo menos nos reservar o direito de dar o nome certo a cada sintoma? Você está com burnout? Não, estou com síndrome aguda de capitalismo de crise. Isso aí são comportamentos de incel ou de femcel? Não, na verdade é um surto de Capitalismite. E esse bebê de borracha que você está amamentando, não seria…Ah sim, é verdade. Tecnofeudalose.

