A peregrinação da Ovelha Negra
Nascer ovelha negra não é um drama comum a todos. Quem amarga essa condição familiar sabe o que significa. Um lugar desconfortável e etéreo, difícil de pegar com as mãos. Até você se entender como ovelha (como se carecesse de um pastor) e negra (como se essa cor definisse algum mal) já passou por uma série de situações impensáveis que, muito provavelmente, vão colocar você em peregrinação.
Nesse terreno é impossível não falar de moral. Em geral, ovelhas negras estão justamente em diáspora de um sistema moral. Um sistema, como todos, calcado em representações (vamos ver isso mais à frente) e que dificilmente mira em algum bem estar coletivo, alguma harmonia de grupo, sustentabilidade, etc. Uma representação, como elaborou Schopenhauer, é a forma como o mundo aparece ao sujeito, sempre mediada pelos sentidos e pela estrutura cognitiva. Ou seja, esse sistema moral carrega uma explicação que depende dos sentidos do sujeito que a engendra, da formação subjetiva e moral dele, portanto enviesada de saída, como todas as outras. E isso ganha um matiz especial nas famílias disfuncionais.
Uma dessas representações típicas do universo de exilados familiares é a da automutilação moralizante. Nela, os membros de um grupo devem se destruir (a esmo) porque isso é o certo. E “destruir” pode ser muita coisa. De sacrifícios inférteis a vícios comuns, físicos ou psíquicos. Só que a ovelha negra sente que, por acaso, aquilo não vai ser sustentável nem satisfatório no futuro, e que, talvez, apenas talvez, haja alternativas.
Portanto, para se taxar alguém de ovelha negra, é necessário haver uma representação da norma, do que é ser ovelha branca: obediente, inofensiva, disposta a sacrificar sua integridade física e psicológica pelo conforto do sistema familiar. E daí que, não se concordando com essas regras, resta a ruptura.
Agora, temos um cenário mais completo. Nosso animal em diáspora da representação moral de ovelha e do estigma simbolizado mal-intencionadamente pela cor, escapa do arranjo de regras anterior (ainda que parte deste arranjo o vá acompanhar) e segue numa jornada completamente desconhecida e que, no melhor dos casos, vai acabar gerando outras representações.
Se antes era necessário negar o conjunto de regras em que se estava embebido (você só é moral enquanto serve as nossas normas, ainda que elas prejudiquem a todos, nós inclusos), agora é preciso construir um outro sistema, praticamente do zero, mas ainda com matéria prima do local de origem.
Conceitos de amor, de afeto, de confiança em si e no outro. Conceitos de figuras parentais…todos reconstruídos. Um percurso cheio de acidentes, mas certamente não impossível. Um sistema também enviesado e parcial, contudo (e a esperança é essa) mais funcional e sustentável que o anterior. Como Pete Walker trata em seu livro CPTSD, ruma-se para fora da redoma da sobrevivência. O que nossa ovelha não tem clareza é o destino para onde se dirige.
Nossa ovelha peregrina não tem estabelecido para onde vai, apenas de onde está fugindo. E com isso ela, mais comumente, vai se desventurar em diversas situações, que nascem dessas representações transitórias que carrega. Para dar alguns exemplos:
Obcecar-se com feitos, pois não era amada apenas por ser quem era;
Lutar com uma insatisfação crônica, que não permite saborear vitórias nem momentos de paz;
Tornar-se demasiada agradável, flexível, cordata, por ter aprendido na base da violência a respeitar “autoridades”;
Ou tornar-se cegamente agressiva contra fantasmas, projeções do passado das quais ela ainda não tomou consciência, mas que não estão mais lá;
Distrair-se com outros vícios para divergir da dor da desconexão ou da solidão natural que acossa os desterrados.
Há outras situações. Mas essas já ilustram o tipo de redemoinho perceptivo em que nosso ovino rebelde vai se emaranhar até, com alguma sorte, encontrar uma direção mais clara. Pete Walker considera que essa direção é o florescimento, o que é mais ou menos para onde outros autores (como Bessel van der Kolk com seu conceito de reconstrução e Alice Miller com a recuperação do verdadeiro self) apontam. Pode haver florescimento, mas ele vem depois e esse é outro ponto que me interessa.
Dentre as muitas representações a serem desconstruídas e substituídas, vai ser necessário repensar o que é “bom“ para si. Se, antes, bom era a pertença, ainda que envenenada, agora terá de ser outra coisa. Como por exemplo o respeito, a definição de limites, a reciprocidade. E tudo isso vai ter um gosto estranho a princípio, como uma língua nova, uma comida estrangeira, que não parece com “casa”. E ainda não é. A casa nova da ovelha está sendo construída, e tudo terá de ser necessariamente estrangeiro se ela quiser ter alguma paz. Até que, com tempo e repetição, essas experiências deixam de parecer estranhas e passam a se tornar positivas e, por fim, tornam-se familiares.
Antes disso, uma outra armadilha: querer demais chegar ao florescimento, e aqui vale pensar em Viktor Frankl e no conceito de hiperintenção. Há alguma coisa estranha na física dessa condição de exilado. O mais lógico seria imaginar que, uma vez feito o esforço da mudança, o resultado fosse garantido, ou pelo menos facilitado. Mas não. Há algo contraintuitivo em informar o cosmos do que se quer. O que costuma resultar em silêncio por parte dele, como aponta Camus; quando não, mais desafios, como mostra a experiência.
E agora?
Seria fácil ficar ressentido, amargurado, indócil. E é o mais comum. Há ovelhas desgarradas pelo caminho, que se tornam cínicas, inconfiáveis, autodestrutivas; que abandonam essa via crúcis e isso é perfeitamente compreensível. Mas trago aqui uma ideia que vi recentemente num livro do Alain de Botton, e que pode ser útil. Cara ovelha, o que você está tentando fazer é muito, muito difícil. E, portanto, requer, além da coragem, flexibilidade, paciência e generosidade consigo mesmo. E mais: a curiosidade de se querer descobrir o que há do outro lado do véu, nesse tal florescimento. Até lá, expectativas e perspectivas terão se transformado muito, e para bem. Faz parte das representações do passado querer que as coisas sejam perfeitamente de um jeito. Esses absolutismos de expectativas ainda não são sinal de saúde.
Mas, com o tempo, perde-se a pelagem e a cor, e torna-se algo muito maior: aquilo que você realmente é.
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